Certa vez um professor me disse que se encontramos um livro que gostamos, devemos comprá-lo, pois não sabemos quando veremos o tal livro de novo. Ainda mais quando se trata de um autor local. Foi o que aconteceu comigo durante nossa viagem para Campinas.

Visitamos a Comic City, uma loja sensacional de quadrinhos, e eu estava perdida babando na estante de mangás. Foi quando o vendedor me mostrou The Weight of Water, quadrinho da mangaka campinense Gisela Pizzatto. Depois de folhear e me encantar com as ilustrações, não resisti e trouxe para casa.

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A trama é protagonizada por Seele, uma sereia solitária no mar. Sua vida monótona vira de cabeça para baixo quando encontra a Bruxa do Mar, que sabe mais sobre o seu passado do que ela mesma se lembra. Em uma história misteriosa – com direito a piratas, claro! – Gisela nos conduz em uma trama lindamente ilustrada, que merecia um lugar em mais prateleiras.

E adivinha só: a Gisela Pizzatto está no Travel Storytellers! Entrevistamos a ilustradora em um bate-papo rico, mesmo em meio a correria. Confira abaixo:

Em sua bio você diz que se apaixonou pelo mangá em 2000. Qual foi o mangá que despertou essa paixão?

Na verdade não foi um mangá específico. Eu já dava aula de Desenho Artístico nessa época. Um amigo meu que dava aula de mangá ia ficar um ano na Austrália e precisava de alguém que ficasse com as turmas dele até ele voltar. Então ele me chamou e eu fui fazer umas aulas, entender como funcionava. Por tabela tive que ler um monte de mangá e assistir um monte de anime. Não deu outra, apaixonei pela coisa em si.

Como é o seu processo de criação, desde a ideia inicial ao roteiro e até o desenho?

Não tenho muito um processo definido. Depende do trabalho e da história, mas algumas coisas são fatores essenciais pra eu começar o trabalho: primeiro, se eu vou fazer a história sozinha (como foi o caso d’O Peso da Água) ou se vou ter parceiro pra desenhar. Se tiver parceiro, normalmente escrevo a história para o traço da pessoa e pensando nas coisas que ela gosta e em que se sai melhor. Dependendo de quem é faço o storyboard, dependendo entrego o texto corrido.

E como foi a elaboração de The Weight of Water, especificamente?

No caso do Peso, a história surgiu de duas coisas nada a ver uma com a outra: uma orquídea que eu tenho (coleciono!) e um poema. A orquídea é a Blc Meiner Seele Schatz, que é uma orquídea laranja e cheia de pintinhas, que deu origem à personagem principal, a Seele. O poema é o “And Death Shall Have no Dominion”, do Dylan Thomas, usando num filme que se chamava exatamente O Peso da Água, com o Sean Penn. Misturei isso tudo e saiu o meu Peso, nem sei muito bem como. Pra essa história especificamente escrevi as linhas gerais, com algumas falas e daí fiz o storyboard. Do storyboard passei para as páginas, que sempre faço tudo de uma vez, desenho primeiro, na ordem das páginas e depois a arte final. Sou bem metódica com isso, quando eu estou fazendo quadrinhos.

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Para você, entre escrever e desenhar, qual é o mais desafiador?

Desenhar, com certeza! (risos) Porque na hora de escrever você pode fazer mil peripécias! Já pra desenhar, colocar essas coisas imaginadas no quadrinho, na página, no mangá…. aí, complica. O desenho tem que sair bom, os ângulos, perspectiva correta, anatomia correta, storytelling bom. Tem que ter tudo isso.

Você também dá aulas de desenho. Quais aprendizados da sala de aula você leva para o seu trabalho autoral? O quanto um inspira o outro?

Nossa, essa é uma pergunta excelente. Parece que não tem nada a ver, mas tem tudo. Cada trabalho meu publicado, se eu tive qualquer chance de escrever agradecimentos, você vai ver uma menção aos meus alunos.  Eles salvaram minha vida inúmeras vezes, nos sentidos mais variados que essa frase pode ter. Sem eles eu não teria chegado onde estou. A sala de aula me fez aprimorar meu traço e conhecimentos de roteiro par poder dar aulas melhores, mais consistentes. Conversar com os alunos em sala de aula me dá mais recursos pros roteiros, peço sempre opiniões, se eles acham clichê o que acham de o personagem fazer isso ou aquilo. Sempre debato com eles, conto o que estou fazendo É muito legal. É bacana demais ver a empolgação deles com as páginas, a expectativa do quadrinho publicado, a torcida e o orgulho de dizer “foi a minha professora quem fez”. Não tem nada parecido com isso. Quero dar aula pra sempre.

Que dicas você daria para quem pensa em trabalhar com quadrinhos, seja em formato de mangá ou não?

Nossa, acho que o que todos dizem: estude, estude, estude. Estude desenho, arte final, anatomia, roteiro, perspectiva. Tudo o que puder. Tem sempre coisas que a gente não domina cem por cento, mas não tenha vergonha de perguntar e pedir dicas pra outras pessoas que sabem e dominam um assunto mais do que você. Eu faço isso direto. Aprende-se com isso e achamos novos meios de sair de algum dilema. Outra coisa que eu considero importante demais e que me ajudou muito a chegar no “tipo” de mangá que eu considero “verdadeiro” e não uma paródia foi ler muito mangá. Mas não como simples leitora ou fã; com olhos críticos e de estudo. Como este autor faz o storytelling? Como esse outro coloca retículas? Que estilo seguir? Se vou seguir este tipo de estilo, que acabamento combina? Esse tipo de coisa não se acha nos livros. A gente precisa de alguém que nos guie. Precisa de muita observação. Sempre digo para os meus alunos: todo bom desenhista é um bom observador. E se você vai fazer quadrinhos, tem que estudar. Seja mangá, seja Marvel/DC, seja mercado europeu, seja indie. Cada um tem suas particularidades e você tem que encontrá-las. O que não quer dizer que não possa usar elementos de um e de outro no seu trabalho. Eu li Steve McCloud e Will Eisner, que me ajudaram muito no que eu faço e tem um monte de gente de mangá que nem sabe quem são esses caras.

No final das contas, é a prática que nos aprimora. Se você quer desenhar, DESENHE. Se quer escrever, ESCREVA. Faça. Não espere ficar bom pra fazer alguma coisa. Nunca estaremos bons o suficiente, pois a nossa capacidade cresce junto com a nossa vontade de ser melhor.

Você é de Campinas-SP. Quais são os seus lugares favoritos da cidade? 

Gosto de lugares que tem comida! (risos) Acho que Campinas poderia ter mais lugares bacanas, pelo tamanho que está a cidade. Mas gosto muito do Bosque dos Jequitibás, sempre gostei, porque tem aquela cara de refúgio no meio da cidade, porque tem umas coisas muito antigas que eu adoro e porque é excelente pra passear com as crianças. Adoro Sousas e Joaquim Egídio pela tranquilidade, pra andar a cavalo. E gosto muito do Cambuí, de passear por lá, que tem um monte de casa antiga que eu amo, umas ruazinhas avulsas e escondidas, além de um monte de lugar bom pra entrar e…comer!

 

Ainda não existem tantas mulheres quadrinistas – apesar de já termos muitas nos roteiros. Mulheres que fazem mangás são ainda mais raras. Levar um quadrinho por um preço módico pode parecer pouco, contudo é um grande incentivo para que quem vive da arte continue produzindo e nos encantando. Lembre-se disso 😉

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One thought on “TS Livros – Fundo do Mar, com Gisela Pizzatto

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